Arquivos para janeiro, 2003
Arquivos por Mês
dom 19 jan 2003
Só o fato de ser do mesmo autor de “Mai” (um dos primeiros mangás a sair no Brasil, na época da onda Akira/Lobo Solitário) já valeria uma olhada neste gibi – e pelo jeito o Sr. Kazuya Kudo não perdeu a mão, o gibi é ótimo.
É verdade que a capa não seduz muito – talvez seja a colorização, meio artificial, ou a idéia (errada) de grupo infantil de combatentes que ela passa. A primeira coisa que me chamou a atençào é que a história se passa em Nova York (o personagem principal é nipo-americano), dando uma visão interessante a temas como a máfia, policiais nos dois lados da justiça e até sobre os veteranos do Vietnã que residem na cidade.
Também destaca-se o fato de não haver uma continuidade muito forte entre as histórias – apenas o personagem principal permanece. Este último fator, aliado ao fato de as páginas terem sido adaptadas para a ordem de leitura ocidental, certamente vai agradar os não-aficcionados pelo gênero, sem prejudicar os fãs como eu.
O fato de ser um formato maior e de terem “invertido” as páginas não impactou muito no preço: R$ 5,50 com três histórias que dividem 82 páginas. Fico torcendo para que os próximos números sejam publicados, pois tenho um certo receio quanto à viabilidade comercial de qualquer mangá acima da linha dos R$ 5. Desta vez espero estar errado.
sáb 18 jan 2003
Aproveitando o assunto HQ: por esses dias eu recebi na USP um panfleto, que me chamou a atenção por ser todo feito em quadrinhos. Não é novidade nego usar HQ para tentar passar um recado: o formato junta o apelo visual de mídias como a TV com a densidade dos meios escritos.
O que me chamou a atenção é que o panfleto era propaganda de uma igreja. Quadrinhos costumam abordar temas eclesiásticos, especialmente a partir dos anos 70, mas é comum fazê-lo através de uma visão mais distante. Quando há um posicionamento, geralmente é crítico.
Eu analisei como se fosse um fanzine – achei mais justo, dado que não é uma publicação profissional. A introdução foi muito feliz, dado o público-alvo (foi distribuída na porta do local de prova), e é até engraçada. Pena que, a partir da metade, o argumento descamba para as técnicas Instituto Universal Brasileiro de passar um recado (especialmente a terceira linha).
Talvez o autor estivesse fazendo outra piada neste ponto (caso em que falhou), talvez tenha se empolgado demais com o tema (motivo que, a meu ver, mata na praia muito músico gospel de talento), ou talvez simplesmente ele tivesse se comprometido com uma mensagem densa demais para uma página só (os personagens começam a ser “empurrados” pelos balões pouco ortodoxos, erro comum em fanzines iniciantes). O fato é: se ele tivesse mantido o ritmo das duas primeiras linhas, o resultado final ia ser bacana.
De qualquer forma, é interessante ver que uma organização de caráter mais ortodoxo enxergou os quadrinhos como uma mídia potencial (eles podiam ter feito um panfleto “normal”, que certamente envolve menos riscos institucionais). Claro que provavelmente foi feito por alguém da própria instituição, mas alguém ali dentro aprovou – já é lucro.
É bom lembrar que, em se tratando de Brasil, eu sou partidário de que se estimule toda e qualquer produção de quadrinhos. Quando a gente tiver um volume de publicações (e, principalmente, de remuneração) compatível com o primeiro mundo, daí podemos ser mais críticos com a qualidade e o uso que é feito delas.
sex 3 jan 2003
A Conrad lançou o especial “R. Crumb: Frtiz the Cat”, uma edição com preço meio salgado na editora, mas que na FNAC estava com um bom desconto quando eu comprei.
Trata-se de uma compilação das histórias de Fritz, personagem de Robert Crumb que dispensa apresentações. O que me levou a escrever foi a história “R. Crumb Comics & Stories”. Eu já tinha lido esta no número 5 da revista “Porrada”, de 1998. Sem estragar muitas surpresas: Fritz retorna à casa de sua mãe no interior, depois de ter vivido um tempo na cidade, e acaba tendo uma relação sexual com uma garota.
Na tradução da Porrada, a garota era a filha do vizinho. Qual não foi a minha surpresa ao ver que, na tradução da Conrad, a garota era a irmã mais nova do Fritz. Pesquisando na Internet, vi que a versão do incesto é a correta. Também descobri que esta história também sofreu este tipo de censura na Espanha, na revista Star, mas em 1975.
Pode ser que a Porrada tenha pirateado o material da revista espanhola, sem saber da censura. Mas também pode ter sido feito de caso pensado. Pior ainda: talvez eles tenham republicado a história da revista Grilo, ou de alguma outra que publicasse Crumb no Brasil. Eu não acredito que a Grilo fizesse coisas deste gênero (só li um exemplar dela até hoje, mas sei que fez a cabeça de muitos autores de quadrinhos no Brasil). Mas é uma possibilidade no mínimo frustrante.
É curioso pensar que, se a Conrad tivesse censurado, até seria compreensível – afinal, eles publicam quadrinhos infantis de sucesso. Seria lamentável, mas compreensível. Mas não o fizeram, o que merece os parabéns e só reforça minhas recomendações acerca desta edição.
Seguem alguns quadrinhos das duas publicações – a qualidade da digitalização deixa a desejar, mas o conteúdo não deixa dúvida alguma.
qui 2 jan 2003
Ser macho, pra mim, é ser sincero. E neste ponto, me acho um pouco boiola: eu elogio vestidos floridos que realçam pneuzinhos, ignoro e-mails cuja gramática ou linha de argumentação imploram por uma desconstrução, parabenizo amigos “abençoados” com uma paternidade/maternidade inesperada, enfim, deixo a honestidade de lado na esperança de tornar o ar mais respirável para as pessoas.
Não me culpo por isso não – se todo mundo fosse sincero, esse mundo ia ser uma carnificina só. Mas admiro quem consegue colocar os dois pés na porta na hora certa, como o autor do artigo “Desista“. Não sou publicitário, mas depois de um certo tempo convivendo pessoal e profissionalmente com gente da área, acredito que o texto devia ser leitura obrigatória para vestibulandos nesta carreira.
P.S.: Ando escrevendo pouco. Combinação de FUVEST e uma repensada que eu estou dando no layout disso aqui. Mas eu volto.
qui 2 jan 2003
Essa é tão ridícula que eu não podia deixar passar: o site Mundo Subliminar dedica-se a achar as mensagens que os conspiradores deixam na mídia na tentativa de corromper nossas criancinhas. Não sei se o autor é um rei da ironia, ou se acredita nisso tudo, mas ele juntou uma quantidade de material capaz de entreter por horas.
Um dos itens hilários é a “mensagem” que descobriram na campanha eleitoral de Lula (confira na seção “Destaques”), que comprova de forma irrefutável que ele é mesmo o demônio encarnado. Também gostei da matéria “Disney”, que promete boas risadas ao mostrar que tudo que o Tio Walt fez é para incutir idéias pecaminosas na petizada. E a seção de comentários, como não poderia de ser, descamba pro quebra-pau pseudo-teológico, dá até medo.
Os paulistas da Zona Leste ganham um brinde: no meio destes comentários, um cara alega que a vinheta da danceteria Overnight, tocada ao contrário, possui uma mensagem satânica (a mensagem é de 19/09/2002, tem que dar uns “avançar”). Se for verdade, é muito irônico, já que, no local onde era a Over, hoje funciona uma igreja…