Arquivos para setembro, 2004

O nome é cheio de firula, mas é merecido: o Ignition é o que há de melhor para jogar DDR, acabando com a desculpa de que “o tapete falhou”. Estou com ele há algumas semanas, e já dá pra escrever algo a respeito.

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capa do livro O Vendedor de HistóriasJá tinha lido dois livros do autor (Jostein Gaarder): o famoso O Mundo de Sofia (que é um misto de romance e curso básico de história da filosofia), e o menos badalado, mas talvez mais interessante O Dia do Curinga. Este último era meu favorito pessoal, até que resolvi experimentar O Vendedor de Histórias – talvez o melhor livro que li este ano.

O narrador e personagem principal é uma pessoa extremamente imaginativa, capaz de criar e recordar histórias com a mesma intensidade e riqueza de detalhes que encontra nas memórias de fatos reais. Após algum tempo contando sua infância e adolescência, ele mostra a maneira pouco ortodoxa na qual aplicou tal dom para ganhar a vida, e as conseqüências disto.

Esta trama permite que várias outras histórias curtas sejam inclusas no meio da história principal. Algumas delas, claro, possuem ligação com a história principal, mas, independente disso, algumas delas já são geniais independente do conjunto, e justificariam o livro sozinhas.

O final, embora interessante, não empolgou como os finais das histórias mais curtas – o que não tira o mérito do livro. Não recomendo ler as sinopses – é muito mais divertido descobrir tudo à medida que vai acontecendo (isso devia ser com qualquer livro, mas parece que com esse os sites de venda insistem em querer revelar mais do que deveriam).

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Ótimo o livrinho Que Saudade, Snoopy!, lançado pela Conrad. São mais de 120 páginas de tiras do Snoopy a um preço que equivale a dois ou três dos mini-mangás atuais. O papel, a tradução, a impressão, e principalmente a seleção das tiras são todos de alto nível, gerando um excelente resultado.

Os elogios são em grande parte um contraponto ao fiasco Snoopy, eu te amo. Apesar do tema atrativo, a predileção por tiras muito antigas (que, com todo o sacrilégio que envolve falar mal do Schulz, eram bem amadoras e pouco lembram o Peanuts que conhecemos e amamos) e a limitação do tema acabam tornando o livro repetitivo e chato.

Fuja desse e fique com o primeiro. Não se deixe levar pelo marketing de “presente ideal para a pessoa amada” – eu mesmo comprei com essa intenção, mas o livro é tão ruim que eu resolvi provar o meu amor guardando ele pra mim…

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clique para ver uma tira do MacanudoTive a oportunidade de conhecer o trabalho do argentino Ricardo Liniers Siri graças a um amigo que gentilmente me emprestou a coletânea Macanudo de Liniers, No. 1.

É uma das tiras mais agradáveis que li nos últimos tempos – tanto pelo desenho quanto pelas histórias e seus personagens inspirados, tais como “O senhor que traduz os títulos dos filmes estrangeiros” (e seu dicionário com todas as setenta e seis palavras do idioma nacional) até “Z-25, o robô sensível”. Isso sem falar nos duendes e pinguins – nunca imaginei o quanto essses dois grupos se prestavam ao questionamento existencial e sociológico.

Infelizmente a coletânea é difícil de achar por aqui (embora eu esteja a fim de tentar esse site). E mesmo assim só existe em castelhano – o que não é uma barreira, mas afasta leitores casuais. Uma dica: o jornal argentino La Nación publica a tira diariamente, e permite recebê-la por e-mail. Basta clicar em registrarse, e, na última tela, procurar por Liniers na seção “Humor” (também estão disponíveis Maitena e outros, tudo grátis como a Internet deve ser).

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Já que confesso os filmes que assisto tardiamente, aproveito para mencionar Ensaio Sobre a Cegueira, que só li agora.Sem grandes pretensões, este relato de uma cidade na qual vários habitantes são acometidos de uma cegueira misteriosa é interessante e justifica a leitura.

O autor é criticado por seu estilo que substitui os diálogos por longos parágrafos onde o narrador assume o “tom” de quem está falando.Não tive problemas com isso – ou, ao menos, não foram nada comparados aos que eu tive com o chatérrimo Voz do Fogo, que usa um artifício semelhante para tentar colocar o leitor dentro da cabeça de um homem das cavernas mentalmente debilitado. Este livro me levou a dois sacrilégios: falar mal do autor (Alan Moore) e parar de ler um livro antes do final.

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capa de O Estranho Caso do Cachorro MortoNunca me decepcionei com as resenhas de livros do Joel Spolsky. Mas o assunto costuma ser o processo de desenvolvimento de software, o que me deixou supreso ao ler seu comentário a respeito de O Estranho Caso do Cachorro Morto (bem, talvez nem tão surpreso assim, já que ele é o único outro desenvolvedor que eu conheço que cita Gilmore Girls do nada).

O narrador/personagem principal é um jovem portador da Síndrome de Asperger, uma forma muito particular de autismo cujos sintomas incluem uma dificuldade em interpretar linguagem corporal e facial – geralmente sem prejuízo da capacidade intelectual. O ponto de partida é sua tentativa de encontrar o assassino do tal cachorro, o que o leva a descobertas muito mais comprometedoras sobre a vizinhança que o cerca.

Tal descrição pode dar a falsa ilusão de que é apenas mais um drama ou romance policial, mas o livro vai muito além disso. É um convite a conhecer o mundo através de uma nova ótica – tão racional que desconhece a metáfora e é incapaz de recorrer à mentira. Uma visão objetiva, mas não desprovida de sentimentos, que analisa uma simples viagem de metrô e a mais complexa crise conjugal com o mesmo rigor científico, numa tentativa diligente de encontrar ordem no caos que nós chamamos de mundo.

capa de O Guia do Mochileiro Das GaláxiasO Guia do Mochileiro das Galáxias é um clássico da ficção científica, meio antigo até, mas cuja edição nacional é recente. Já não leio este gênero há um bom tempo, mas valeu a pena abrir uma exceção, pois o livro é realmente fantástico. Não dá pra falar muito sem estragar surpresas, mas basta dizer que, ao contrário da maioria dos autores de FC (que se levam mais a sério do que merecem), Douglas Adams expõe suas sacadas não como uma tentativa frágil de sistematizar o mundo, mas sim como o que são: excelentes sacadas.

No final, fica mais do que justificada a enorme quantidade de referências a ele na web (desde a relação entre peixes e o tradutor do AltaVista até o resultado misterioso da calculadora do Google). A edição tem preço acessível, e a qualidade (papel, tradução) no geral não decepciona. É o prieiro de uma série (e não dá pra saber se os outros serão lançados), mas pode ser lido sozinho sem maiores problemas.

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cartaz do filme Lua de Fel, versão alemãNão sei o que me atraiu desta vez. Posso estar influenciado pela falta de filmes interessantes, pela maneira com que ele chegou a mim ou até mesmo pela relevância pessoal das questões abordadas. O que sei é que ainda estou encantado com Lua de Fel, filme lançado em 1992, mas que só vim a assistir no último feriado.

O diretor (Roman Polansky) trabalha temas diversos, girando principalmente em torno de relacionamentos que se esgotam, seja pela falta ou pelo excesso de ardor. O mais importante é que ele o faz fugindo dos lugares-comuns do gênero, e, principalmente, sem a previsibilidade e as lições de moral que invariavelmente estragam qualquer tentativa de abordar tais assuntos com seriedade.

É difícil falar muito sem estragar surpresas. Além disso, não quero privar ninguém do prazer que eu tive ao assisti-lo sem saber nada a respeito. Desta forma, vou apenas deixar como referência de algo que muito me agradou – o que, em se tratando de filmes, não tem sido fácil ultimamente.

Apenas um comentário: o título me pareceu uma daquelas armações pseudo-marqueteiras que tentam associar qualquer lançamento a algum sucesso recente – cito, como exemplo, O Vingador do Futuro e O Exterminador do Futuro, nos quais o “Futuro” pulou do roteiro para o título numa provável tentativa de capitalizar sobre algum outro filme, talvez De Volta para o Futuro (único dos três cujo título original menciona o futuro).

Felizmente foi engano meu: o filme é uma co-produção anglo-francesa, e embora o nome em inglês seja Bitter Moon, a distribuidora nacional fez a feliz opção pelo nome em francês (Lunes de Fiel), já que este também é o nome do livro que deu origem ao filme.

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