Arquivos para setembro, 2008
Arquivos por Mês
sáb 20 set 2008
Já se falou bastante sobre Kiva na internet nos últimos tempos. Mas ainda me impressiona a quantidade de gente que não conhece o site, que ignora a efetividade do microcrédito e sequer sabe da possibilidade de colaborar a partir do Brasil sem sair do computador – o que me levou a compartilhar um pouco de experiência a esse respeito.
Para quem não conhece, trata-se de uma iniciativa que oferece microcrédito a empreendedores individuais em regiões carentes. Gente que vai usar esse dinheiro para plantar, comprar algo para revender, enfim, batalhar a vida quando um emprego não é uma opção. A idéia (baseada em indicadores socioeconômicos) é que este tipo de empréstimo oferece retornos sociais maiores e mais duradouros do que iniciativas “pasteurizadas” de larga escala, como programas de emprego e combate a fome (ou, ao menos, complementares a estas).
A instituição conta com agentes nesses locais que levantam e analisam cada caso em que um empréstimo de baixo valor possa representar avanço social, apresentando estes perfis a potenciais investidores. Não é a única a fazer isso, mas inova ao permitir a qualquer pessoa participar com qualquer quantia nestes empréstimos através da internet. Basta entrar no site, selecionar o pequeno empreendedor no qual você quer investir e a quantidade que quer emprestar (você pode emprestar apenas uma pequena parte do que ele precisa, e até diversificar seus “investimentos”).
O pagamento pode ser feito através do PayPal (que não cobra taxas neste caso), minando o risco de problemas com o seu cartão de crédito. Quando o empréstimo é pago (o risco de não-pagamento existe em qualquer empréstimo, mas eu tenho recebido regularmente), você pode re-investir e/ou doar parte para a própria Kiva manter a operação, ou creditar novamente no PayPal. Pessoalmente acredito que se o dinheiro não lhe fez falta, é mais jogo mantê-lo na ciranda do bem, mas a opção está ali.
Infelizmente o Brasil ainda não se inclui entre os países que eles ajudam – seria bastante interessante optar por ações locais. Isso não muda o fato de que transferir recursos para este setor da economia é efetivo como avanço social global, e colaborar para o avanço deste tipo de iniciativa (independente da região geográfica) é, a meu ver, mais eficiente do que o assistencialismo puro e simples (que tem seu lugar, mas resolve mais a questão de aplacar a consciência de quem doa do que de oferecer possibilidades de longo prazo para quem recebe).
seg 15 set 2008
Quem é de São Paulo corre o risco de já ter experimentado Dekopon, uma variedade de tangerina (trad.: mexerica ou bergamota, conforme sua região) que se destaca pelo tamanho, sabor e ausência de sementes.
Eu fiquei viciado nesse negócio, e outro dia trouxe ao escritório. No meio de uma brincadeira surgiu o questionamento: será que esse tipo de planta sem sementes pode representar problemas para os produtores? Não faz muito tempo que rolou uma polêmica sobre as sementes “terminator” da Monsanto (que tornavam a segunda geração estéril) e eu não iria dormir em paz consumindo algo tão na contramão da agricultura socialmente responsável.
Na internet tem bastante informações sobre a qualidade da fruta – só que a questão das sementes ninguém esclarecia. No entanto, segmentação é tudo: encontrei o Citrus Growers Forum, que, como o nome diz, é uma comunidade só de gente que planta cítricos. E lancei lá:
I live in Brazil, and, as you can imagine, we have a wonderful assortment of citrus here to choose from, which I really appreciate as a consumer. In recent years, the Dekopon variety became increasingly popular on my state (São Paulo), for its flavor, size and lack of seeds.
And here lies the problem: I wonder whether such a seedless fruit can be harmful, in the long term, for producers. Not long ago there was a huge controversy regarding GM terminator seeds that make subsequent generations of plants sterile, making producers dependent on seed industries.
I’ve read that commercial producers don’t use seeds anyway, but I really would like to be sure about that (and other consumers I talked to also have such concerns), because I really wouldn’t like to develop a behavior that puts producers (in particular small ones) out of business.
So, the question is: should a conscious consumer stop buying such fruits?
O Laaz, que é administrador do forum, respondeu rapidamente:
As to your question, commercial citrus is not grown from seed, but from buds from a mature tree so it shouldn’t have any impact whatsoever
Ou seja, as frutas que a gente compra no mercado ou na feira não vêm de sementes, e sim de mudas de uma árvore adulta. Logo, consumidores conscientes podem saborear o Dekopon em paz.
Vale lembrar que a época da colheita é entre Maio e Setembro, o que significa que a hora de comprar é agora. Aproveite!
dom 14 set 2008
Novamente uma dobradinha de resenhas, que abro com The Starfish and The Spider, que apresenta uma maneira inusitada de classificar as organizações (empresariais ou não). Ele as divide entre “aranhas” (spiders), isto é, organizações altamente centralizadas e “estrelas-do-mar” (starfishs), que trabalham em um esquema mais descentralizado, com decisões locais e ágeis.
O conceito é simples (ainda mais colocado como está aqui, para não estragar as surpresas), mas os resultados são poderosos. E, ao contrário do que se pode imaginar, não é novo: alguns dos casos estudados pelo livro aparecem em lugares tão improváveis quanto as civilizações pré-coloniais do continente americano, ou mesmo em braços e épocas diferentes da mesma organização.
É uma leitura leve e interessante, embora não seja totalmente revolucionária para quem já tentou entender como empresas “desorganizadas” conseguem muitas vezes levar a melhor sobre organizações que aplicam as tradicionais técnicas militares/meritocráticas. Ainda assim, sistematiza e exemplifica o assunto, ajudando a situar esforços concretos neste sentido.
Founders at Work não é tão ousado: ao invés de apresentar um novo conceito, permite aos fundadores de dúzias de empresas de tecnologia que afetaram e afetam o nosso dia-a-dia contarem como foram seus primeiros dias.
É particularmente satisfatório o fato de a autora escolher rostos “alternativos” (ex.: Allen no lugar de Gates para falar da Microsoft, Woz no lugar de Jobs para a Apple, etc.). Desde empresas completamente extintas até algumas que mal despontaram, o panorama é amplo e altamente representativo do mosaico composto por tantas companhias que delinearam tecnologias de consumo nas últimas décadas (a lista dos entrevistados é o que mais “vende” o livro).
Não se deixe enganar pelo formato (entrevistas curtas e não diretamente conectadas): cada uma delas navega entre o técnico e o administrativo/estratégico com o fôlego que os entrevistados merecem. É mais denso que o anterior, mas igualmente recomendado – particularmente para quem tem interesse em entender empreendedorismo tecnológico no geral (e as startups americanas em particular). Se você estiver disposto a investir algum tempo (ainda que a prestações), definitivamente vale a pena.